Tuesday, November 14, 2006

Familia


Dando continuidade aos Temas do segundo semestre, o QuinTas Trans discutiu a Família e como é a relação com as Trans.

Como sempre, fizemos uma dinâmica onde nos questionamos sobre situações inusitadas que envolvem Pessoas Trans.

Que conselho você daria a estas pessoas?

Carla tem 17 anos e descobriu há pouco tempo sua transexualidade. Como é de menor e vive com os pais, não sabe muito bem como chegar na família. Para piorar, seu pai é militar e evangélico e sempre sonhou que “o filho” seguisse carreira na Polícia do Exército, já que tem mais de 1.80m. Seu maior medo é descobrirem que ela já começou com os hormônios e ser expulsa de casa. Seu corpo está mudando a passos largos e ela tem medo de ser espancada e de ir parar na prostituição.

E agora, qual o conselho?

Mário tem 43 anos. Obviamente que o pai dos seus filhos não o chama de Mário, mas de Maria Helena como fora registrado. Apesar de toda pressão e vontade de esconder seus segredos mais íntimos, Mário está em depressão e não agüenta mais viver o teatro em que vive. Pensa todos os dias em contar pro marido que na verdade ele é homem, mas sempre pensa nos filhos, na sua sogra, na sua vizinha. Mário está entre a cruz e a espada, e se não encontrar uma solução, os meninos vão ficar “órfãos por parte de mãe”.

E agora, qual o conselho?


Marcela Cristina viveu muito tempo como um “homossexual enrustido”, tentando esconder seus trejeitos e sua voz fina e ondulada. “filho único” de mãe viúva, ela sempre foi “o homem da casa”, e sempre tentou agradar a mãezinha querida, que sempre fez vista grossa em relação a sua delicadeza. “Rapaz educado” dizia ela. O “rapaz educado” cansou. Está entrando em parafusos e precisa colocar-se no mundo como a mulher que sempre foi. Claro que tem medo de frustrar sua mãe, afinal de contas, com quem mais ela vai contar? E a vergonha de ter “um filho travesti”, como vão ficar as coisas?

E agora, qual o conselho?


Claudina Ro-Rô saiu muito cedo de casa no sertão nordestino e veio para São Paulo ganhar a vida. Deixou sua família por lá na Paraíba e começou a se dar muito bem nas pistas de São Paulo fazendo ponto. Ela sempre mandou dinheiro para sustentar a família, mas ninguém nunca soube do verdadeiro destino de “Ademar Rogério” seu nome de batismo. Sempre foi muito apegada à mãe, mesmo a distancia, e sempre dava um jeito de falar com ela ao telefone vez por mês para lhe dar noticias e matar a saudade. Num destes telefonemas, descobriu que a mãe havia falecido, e que seu irmão precisava da sua ajuda para enterrá-la e consolar o restante da família. É, seria inevitável para Claudina esconder-se agora. Era hora de voltar pro sertão e encarar todo aquele povo de baixa instrução, na terra do “cabra-macho”, de peito erguido, com próteses de 500 ml de silicone.

E agora, qual o conselho?


“Fernando” conseguiu. É vice-diretor numa multinacional da mineradora do seu pai. Nada a se estranhar neste fato a não ser o fato de que o “Fernando no RG” é na verdade Rose Hellen, e acabou abocanhando o cargo que poderia ser de sua amiga e concorrente Ana Lúcia, que é super competente, mas não ganhou o cargo porque é uma Mulher. Neste ambiente machista-familiar, Rose Hellen está se descobrindo mulher e vendo o tempo passar para começar sua transição. Os 8 mil e 500 reais de salário são maravilhosos pra essa mulher que sempre se vangloriou de sua inteligência e nunca precisou do pai para promovê-la, mas sim do pênis para dizer quem tem mais valor. De fato é o reconhecimento do seu trabalho, mas não agüenta mais viver de terno, dia-após-dia. Adoraria colocar um tailler e mostrar quem manda ali, mas sabe que seu império pode acabar em segundos ao se assumir, pois além de perder o seu emprego, pode ser deserdada e perder a fortuna da sua família.

E agora, qual o conselho?


Carlos Henrique ama sua namorada e pretende casar com ela. Isso ele não tem mais dúvidas. Porém, sua mãe quer que ele case com Júlia na mesma igreja que ela se casou com seu pai. Até agora a história de que Júlia não é católica está convencendo a velhinha. Porém, Júlia não poderá casar-se no civil, muito menos no religioso. No seu Registro de Nascimento ainda consta seu nome “Júlio César” e seu sexo “masculino”. Carlos está para se separar, apesar de amar Júlia, pois não agüenta a pressão da velhota que quer porque quer fazer uma festa pomposa para nora tão maravilhosa, bonita, fina e branca, aquela que ela pediu a Deus pro seu filho para lhe dar pelo menos dois netinhos arianos, a raça pura de Deus.

E agora, qual o conselho?

Divirtam-se como nós nos divertimos, e veja se você chega a mesma conclusão nossa: Familia é ótimo, mas é muito melhor estar independente dela. De preferência, bem longe... hehehe...


Beijinhos,

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